Prefeito e 13 autoridades viajam a Brasília em comitiva oficial. Viagem gera críticas e cobranças por transparência nos gastos públicos.
Na madrugada do dia 20 de outubro, 14 autoridades de Morretes embarcaram para Brasília em uma viagem oficial. O grupo era formado pelo prefeito, nove vereadores, três secretários e um técnico de comunicação, com a justificativa de participar de agendas em ministérios e captar recursos federais.
O que chama atenção é a lógica da viagem. Deputados federais recebem verba de representação justamente para visitar suas bases políticas e corriqueiramente estão em Morretes. Ou seja, as cidades devem ser visitadas pelos deputados — e não o contrário. Mesmo assim, Morretes enviou toda a comitiva para encontrar esses parlamentares na capital federal, gerando questionamentos sobre eficiência e prioridade no uso do dinheiro público.
A Prefeitura já paga caro a uma empresa responsável por oferecer cursos e treinamentos ao corpo técnico e aos secretários, o que mostra que há alternativas locais e digitais para capacitação. Mesmo assim, a gestão enviou 14 pessoas para fora da cidade, gerando gastos com passagens, hospedagem e alimentação para agendas que poderiam ter sido realizadas de forma online ou sem sair de Morretes.
O impacto da viagem também foi sentido no funcionamento da Câmara. A 35ª Sessão Ordinária, prevista para 22 de outubro, foi suspensa por falta de quórum, assim como as reuniões das comissões permanentes. A ausência de vereadores evidencia que a viagem mobilizou praticamente toda a Câmara, afetando a rotina legislativa.
O Clic Litoral solicitou oficialmente à Prefeitura e à Câmara Municipal informações detalhadas sobre a viagem, incluindo a agenda oficial de compromissos, os valores gastos com passagens, hospedagem e diárias, e a justificativa para a participação de todos os representantes.
As gestões confirmaram o envio da comitiva, mas não apresentaram os documentos nem os custos solicitados, afirmando apenas que as informações seriam incluídas posteriormente no Portal da Transparência.
Em nota, a Prefeitura disse que outubro é o mês de busca por emendas parlamentares e novos investimentos, e que a preparação técnica e a documentação em dia são fundamentais para assegurar recursos que melhorem a qualidade de vida da população.
A Câmara Municipal também foi questionada sobre a viagem. Em nota, afirmou que a presença de todos os vereadores visa ampliar a representatividade política de Morretes junto às diversas esferas federais, fortalecendo o diálogo entre os Poderes e aumentando a capacidade de articulação com diferentes partidos e bancadas parlamentares. A nota acrescenta que cada vereador pode desenvolver agendas individuais e partidárias, e que todos os relatórios e documentos relativos à viagem também serão publicados no Portal da Transparência dentro do prazo legal.
Apesar das respostas, alguns pontos permanecem em aberto. Não está claro se a presença de toda a comitiva era realmente necessária para cumprir compromissos que, em sua maior parte, envolvem o Executivo. Também não há informações sobre quais agendas individuais foram realizadas por cada vereador, nem sobre o impacto concreto dessas visitas para a cidade.
O morretense Moacir Alves Pinto foi um dos que se manifestaram publicamente sobre o caso, criticando o gasto de recursos públicos com a viagem.
“Enquanto faltam investimentos em saúde, educação e infraestrutura, o que se vê é uma comitiva inteira viajando com dinheiro da população. Os vereadores, que deveriam fiscalizar o prefeito, acabam participando das mesmas mordomias. Isso é um desrespeito com quem vive em Morretes”, afirmou.
Moacir também questionou a falta de transparência nas ações da gestão:
“O povo tem direito de saber quanto foi gasto, quem participou e qual o resultado dessa viagem. É o mínimo que se espera de quem governa com responsabilidade.”
A viagem a Brasília escancara uma contradição que incomoda: enquanto o discurso oficial fala em “buscar recursos” e “fortalecer representatividade”, a prática revela uma gestão que ainda falha em prestar contas ao cidadão.
Em um momento em que escolas enfrentam falta de estrutura, unidades de saúde convivem com carência de materiais básicos e a população espera soluções concretas, ver autoridades afastadas da cidade às custas do dinheiro público soa como um sinal invertido de prioridade.
