Foi da dor silenciosa de ver crianças travadas diante das palavras que nasceu o Clube do Saber. A professora Márcia Ribeiro Cunha, da Escola Arminda de Souza Pereira, viu de perto os efeitos da pandemia na educação: “Muitas crianças não conseguiam ler. Não tinham transtorno nenhum, mas estavam travadas por problemas emocionais.”

A tentativa de ajudar começou na sala de aula, com jogos educativos. Mas logo ela percebeu que havia um obstáculo maior: “A criança não estava preocupada em aprender. Ela queria nota. O peso da nota atrapalhava.”
Márcia pediu um espaço fora da sala tradicional, mas ainda dentro da escola. O resultado continuava abaixo do esperado. Foi quando ela decidiu tirar o projeto do ambiente escolar e levar para um lugar sem vínculos com notas ou provas. Uma senhora da comunidade emprestou a casa e foi ali que tudo mudou. “Comecei a atender grupos de quatro crianças por uma hora. Fora da escola, elas começaram a se desenvolver melhor.”
Ela passou a personalizar os jogos conforme o interesse de cada criança. “A criança que gostava de pipa, por exemplo, eu fazia jogo da memória e de Lego com tema de pipa. Aí funcionou. A criança travada começou a se interessar e se desenvolver.”
Em 2022, dez crianças participaram. Todas foram alfabetizadas. Em 2023, o grupo subiu para quinze — novamente, com sucesso. Em 2024, das 25 crianças atendidas, 19 foram alfabetizadas com o método baseado em jogos e acolhimento. “Foi um processo que deu certo. Hoje, em 2025, ganhamos um espaço no CEU das Artes. E o diferencial é que agora temos uma equipe maior, com alunas de Psicologia, Fonoaudiologia, Psicopedagogia e outras pedagogas que vão ajudar nesse trabalho.”



O projeto atende crianças a partir de 8 anos que estejam no 2º ano e ainda não saibam ler — desde que não tenham laudo ou diagnóstico fechado. “Se tiver 14 anos e não souber ler, pode vir. O que não podemos atender são crianças que já estão em tratamento com terapeutas, porque já estão sendo acompanhadas por profissionais.”
Depoimentos de quem acredita
A pedagoga e psicopedagoga Joseane Santos entrou no projeto pelo convite da Márcia. “Comecei a fazer estágio na Arminda, conheci o trabalho dela e de outras professoras. Depois fui para outros colégios, a gente criou uma amizade e participou de projetos do governo. Aí nasceu esse projeto no coração dela. Ela me convidou, e eu disse: vamos nesse sonho junto. A gente acredita que vai dar tudo certo.”
Já a pedagoga Joseane de Oliveira, que também atua no projeto, compartilhou como tudo começou para ela: “Fui fazer estágio na Arminda, ela conhecia meu trabalho de outros lugares também. Ela foi até minha casa, explicou como seria o projeto. Pensei, analisei, e vi que era legal. A gente veio com tudo. Pintamos tudo por duas semanas, porque sabemos que vão vir crianças que realmente precisam da nossa ajuda. E mais pra frente elas vão poder dizer: aquele projeto valeu a pena.”

A estudante Letícia, do segundo ano de Pedagogia da Unespar, falou com emoção sobre sua motivação pessoal para participar: “Já estudei no Arminda e tive dificuldade na leitura e na fala nos primeiros anos. Acho extremamente interessante hoje poder ajudar nesse projeto fora da sala de aula, porque dentro da sala tem uma pressão. Aqui fora é mais leve.”

Como participar
O Clube do Saber funciona no CEU das Artes, no Jardim Iguaçu, e atende crianças dos bairros Jardim Iguaçu, Vila Santa Helena, Vila Marinho e Jardim Figueira. As aulas acontecem todas as quartas-feiras e sábados à tarde.
As inscrições abrem no dia 7 de maio, presencialmente no CEU das Artes. É preciso levar uma declaração da escola onde a criança estuda. Os atendimentos são sempre no contraturno: se a criança estuda de manhã, participa do projeto à tarde — e vice-versa. Os grupos são formados por quatro crianças por sessão, com uma hora de duração.
Reconhecimento
Durante o evento de inauguração do novo espaço, o vereador Haellesson Stieglitz parabenizou a iniciativa: “Com certeza esse projeto vai crescer mais.”

No final das contas, o sucesso do Clube do Saber mostra que mais do que métodos, o que transforma a educação é o cuidado. “A criança precisa ser vista. A gente ensina com amor, e é isso que está fazendo a diferença”, conclui Márcia.




