Por: Redação Clic Litoral
Uma das principais promessas de infraestrutura turística e histórica de Morretes, a recuperação da Ponte de Ferro sobre o Rio Nhundiaquara — popularmente conhecida como Ponte Velha —, tornou-se o centro de um complexo nó técnico, político e financeiro.
Documentos oficiais obtidos pelo Clic Litoral cruzados com informações portal de transparência revelam que a obra, licitada em setembro e contratada em outubro de 2025 pelo valor de R$ 1.235.500,00, está completamente paralisada.
Em resposta formal enviada a este portal, o Secretário Municipal de Cultura e Turismo, Gilton Dias Junior, admitiu que a Ordem de Serviço ainda não foi emitida.
A justificativa oficial da prefeitura aponta para o atraso na liberação de recursos federais, o calendário festivo da cidade e a necessidade de refazer estudos técnicos junto aos órgãos de patrimônio histórico. No entanto, o confronto das justificativas com o diário oficial levanta graves suspeitas sobre o planejamento da gestão municipal.
Licitação milionária e contrato assinado sem dinheiro em caixa. A primeira grande contradição envolve o fluxo financeiro da obra.
Ainda em 2024, a administração municipal anunciou festivamente o recebimento de uma emenda parlamentar de R$ 1.000.000,00 do deputado Aliel Machado para a reforma da estrutura. Com base nessa promessa e em planilhas orçamentárias que estimavam o valor teto do projeto em R$ 1,35 milhão, a prefeitura lançou o edital de Concorrência Eletrônica nº 07/2025.
Em 24 de outubro de 2025, o município publicou o Extrato do Contrato Administrativo nº 68/2025, oficializando a empreiteira Ernani Jose Bueno Ltda. como a vencedora do certame para executar a obra em 180 dias.
Contudo, ao ser questionado pelo Clic Litoral sobre o motivo de a ponte continuar abandonada sete meses após a assinatura do contrato, o Secretário de Turismo confessou que o município licitou e contratou a empresa sem que o dinheiro estivesse disponível.
Segundo o chefe da pasta: “O principal fator [para a não emissão da ordem de serviço] foi o tempo necessário para a efetiva disponibilização dos recursos federais vinculados à obra. Embora o convênio já estivesse formalizado, a transferência dos recursos oriundos do Ministério do Turismo somente ocorreu nas últimas semanas…”
A declaração confirma que o município vinculou uma licitação pública e uma contratação de empreiteira a um recurso que, não existia na prática, e que levou mais de meio ano para ingressar nos cofres da cidade após a assinatura do contrato.
A prefeitura assegura que o montante de R$ 1 milhão agora encontra-se depositado na conta do convênio e que nenhum valor foi pago ou adiantado à empresa até o momento. O mistério do “Projeto Fantasma” e a doação do projeto de engenharia.
Se a falta de dinheiro travou o início, a situação técnica dos projetos agrava o cenário. Para que uma concorrência pública de engenharia seja realizada, a legislação brasileira exige a existência de um Projeto Básico e Executivo aprovado.
Em 2023, o prefeito da cidade chegou a declarar que equipes técnicas haviam trabalhado inclusive em feriados para concluir o projeto da ponte. Além disso, o orçamento base da licitação trazia metas milimétricas, como a previsão de substituir exatamente 34.789,65 kg de perfis metálicos da estrutura.
O Secretário Gilton Dias Junior declarou à nossa reportagem que o projeto executivo original era regular e continha todos os elementos necessários. No entanto, os atos oficiais da própria prefeitura desmentem o perfeito planejamento da gestão.
Em 21 de maio de 2026, o Diário Oficial dos Municípios publicou o Termo de Patrocínio e Cooperação nº 012/2026. Através dele, a prefeitura aceitou a doação de uma moradora de Curitiba, a arquiteta Aline Cristina Virillo da Silva, que se propôs a realizar — de graça para o município — os serviços de “Diagnóstico Técnico, mapeamento de danos e elaboração do Projeto Arquitetônico de Restauro e Iluminação” da mesma ponte, serviços avaliados em R$ 30.000,00.
A pergunta que a comunidade morretense faz é lógica: Se o projeto de 2025 era completo e aprovado e foi o documento que embasou a licitação, por que em maio de 2026 o município precisa de um voluntário para desenhar o Projeto de Restauro Arquitetônico do zero?
A Ponte de Ferro possui Grau de Proteção 01 e é tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual. Qualquer intervenção civil exige a anuência prévia e rigorosa da Coordenação do Patrimônio Cultural (CPC). O fato de a prefeitura assinar um termo para confeccionar o projeto de restauro agora, em 2026, evidencia que a licitação de R$ 1,2 milhão ocorrida no ano passado foi realizada sem as devidas aprovações de preservação histórica de um bem tombado.
O Secretário tentou minimizar o fato, alegando que o novo trabalho de patrocínio possui apenas “caráter complementar ao projeto já existente” após reuniões com a CPC.
Todavia, o texto expresso do Termo de Patrocínio deixa claro que o objeto doado engloba subsídios fundamentais que deveriam ter antecedido a contratação da empreiteira.
E agora? se esse projeto alterar o que foi licitado, a reforma já começa com previsão de aditivo? Carnaval e Festas Populares como justificativa de atraso.
Em outro trecho da resposta enviada ao portal, a Secretaria de Cultura e Turismo utilizou o calendário de eventos tradicionais da cidade como justificativa para manter o canteiro de obras fechado.
De acordo com o município, o período entre o fim de 2025 e o início de 2026 concentrou fluxos intensos de visitantes na região da Vila Santo Antônio devido ao Natal, Ano Novo, Carnaval e à Festa Feira, o que teria exigido “cautela na definição do momento mais adequado para o início de uma intervenção de grande porte”.
A justificativa ignora o fato de que tais eventos ocorrem rigorosamente nas mesmas datas todos os anos e deveriam constar no planejamento do edital lançado em agosto de 2025.
Não haverá nenhum período do ano com 180 dias sem evento, então nunca haverá uma data adequada, além disso o fechamento da ponte para a reforma não impede o acesso de turistas por outras vias.
A sombra do Ministério Público sobre a empreiteiraO impasse ganha contornos ainda mais delicados quando analisado o histórico da empresa contratada.
A Ernani Jose Bueno Ltda., vencedora do lote da Ponte Velha, é a mesma empreiteira responsável por outras obras estruturais polêmicas e amplamente debatidas em Morretes, como a construção da “Ponte Molhada” e o pacote de 7 pontes de concreto.
Ambos os contratos anteriores da empresa são alvos de Notícias de Fato e inquérito, tramitando junto ao Ministério Público (MP), que apura supostas irregularidades nas execuções e nos gastos públicos.
Questionado sobre quais medidas extraordinárias de fiscalização e obediência legal a prefeitura adotará para garantir que a Ponte de Ferro não enfrente os mesmos problemas jurídicos das outras pontes da cidade, o secretário limitou-se a informar que a obra contará com o “acompanhamento permanente” das equipes internas da prefeitura, por meio de um arquiteto voltado ao patrimônio e da fiscalização terceirizada contratada.
Na prática, a resposta confirma que nenhum mecanismo especial ou auditoria externa foi criado pela municipalidade para blindar o novo contrato milionário.
Clic Litoral de olho no dinheiro público
O cenário atual da Ponte Velha de Morretes resume-se a um choque de realidades: de um lado, anúncios políticos e um contrato assinado de R$ 1,23 milhão; do outro, uma ponte metálica que continua sem receber uma única martelada, um convênio federal que atrasou meses para enviar os fundos e uma prefeitura que depende de uma doação de projeto arquitetônico em pleno ano de 2026 para tentar destravar a aprovação do restauro.
É bom lembrar que assinar um contrato, mas só autorizar o início dos serviços meses depois, pode trazer as mesmas complicações que aconteceram com a obra do telhado da Escola Dulce.
Quando autorizado o serviço o preço dos materiais já é outro e a empresa não consegue executar a obra.
O Clic Litoral continuará monitorando os portais de transparência e os desdobramentos técnicos junto à Coordenação de Patrimônio Cultural. O espaço permanece aberto para que a administração municipal apresente os diários de bordo e as futuras ordens de serviço assim que os projetos — agora doados — forem finalmente concluídos e aprovados.
Redação: Clic Litoral
