Profissional da saúde rompe o silêncio e revela bastidores de uma realidade que afeta dezenas de trabalhadores contratados via cooperativa
Salários atrasados, descontos misteriosos e uma rotina de sobrecarga que adoece quem deveria estar cuidando da saúde dos outros. Esse é o retrato que uma ex-cooperada desenha ao relatar, de forma pública e corajosa, sua experiência atuando no Hospital Paranaguá por meio da cooperativa COOENF.
Cansada de esperar por respostas, ela decidiu transformar o silêncio em denúncia. Em um depoimento publicado nas redes sociais, ela expõe o que define como uma sequência de abusos enfrentados por profissionais da saúde que, além de não receberem em dia, lidam com condições precárias de trabalho, pressão psicológica constante e falta de transparência financeira.
“Nos chamam de desorganizados financeiros, mas e eles?”
A profissional relata que trabalhou como cooperada por meio da COOENF e que os atrasos nos pagamentos eram frequentes, afetando diretamente sua vida pessoal. “Nossas contas precisam ser atrasadas, temos que pagar juros”, relata. Segundo ela, ao questionar a situação, a resposta ouvida foi: “Vocês são desorganizados financeiramente, não têm perfil para cooperativa”.
Para ela, essa fala não só minimiza a situação como também mascara o que seria uma falta de responsabilidade da própria gestão. “Pois bem, senhores, quem são os desorganizados financeiramente? Porque, na frente do hospital, acabamos de ver uma obra monumental de restauração”, critica, ao citar reformas na estrutura do hospital enquanto os repasses aos profissionais são atrasados.
Descontos no teto do INSS e falta de transparência
Outro ponto levantado é a falta de clareza nos descontos aplicados aos contracheques. “Pagamos o teto máximo ao INSS, com descontos que nunca sabemos de onde vêm. Explicações incabíveis que ninguém entende”, escreveu. Ela também acusa a COOENF de realizar descontos abusivos e não apresentar justificativas convincentes.
Assédio moral e clima de ameaça
Após sua denúncia, entramos em contato com outras cooperadas, que relataram situações semelhantes. Segundo uma delas, que também pediu desligamento:
“Falam pra gente que somos donos da cooperativa, mas não temos direito de nada. Quem discorda precisa abrir a câmera e explicar o motivo, mas ninguém abre porque ninguém entende o que estão falando. Eles decidem tudo entre eles. É lavagem.”
Outros relatos apontam que os profissionais são coagidos a aceitar decisões impostas, sem qualquer voz ativa no processo. “As reuniões são uma fachada. Quem questiona, é tratado como problema.”
“Se não gostamos, ouvimos que podemos ir embora. Dizem que somos substituíveis e descartáveis. Eu chamo isso de assédio moral.”
A profissional afirma ter registros: prints, vídeos e fotos que comprovam as condições precárias de trabalho e o descaso. Para ela, essa denúncia não é sobre vingança, mas sobre justiça.
“Faço isso pelos meus colegas que ainda estão nessa situação. Nunca vi isso acontecer em nenhuma das outras empresas idôneas com as quais trabalhei.”
Estrutura precária e sobrecarga na UTI
As críticas também se estendem à estrutura do Hospital Paranaguá e ao descumprimento das normas do Conselho Regional de Enfermagem (COREN). “Não obedece ao critério de dimensionamento correto. Isso deixa os funcionários mais doentes e sobrecarregados.” A profissional diz ter registros em fotos, vídeos e prints, mostrando que os problemas são recorrentes e documentados.
Ela também destaca a construção de uma unidade de hemodinâmica que, segundo ela, “nunca inicia suas atividades”.
Pronunciamento da COOENF
Diante da denúncia, o Clic Litoral entrou em contato com a COOENF para buscar esclarecimentos, Segundo a cooperativa, a relação com os profissionais é regida pela Lei do Cooperativismo (Lei nº 5.764/71), e não pela CLT. Reconhecem que houve atraso em um pagamento, mas afirma que foi de “apenas um dia”, e que o valor foi regularizado.
Sobre os descontos, a COOENF afirma que estão de acordo com a legislação e que os cooperados têm acesso a treinamentos para esclarecimentos. Também nega qualquer tipo de assédio moral, alegando que “preza por um ambiente saudável e respeitoso”.
A respeito da fala sobre substituição de profissionais, a cooperativa diz que pode ter havido um “equívoco de interpretação” e reafirma seu compromisso com a valorização dos cooperados.
urgência de atenção às condições de trabalho
O relato de uma ex-cooperada do Hospital Paranaguá levanta questões importantes sobre as condições de trabalho nas cooperativas de saúde. Embora a COOENF se defenda, alegando atuar dentro da legalidade, as experiências compartilhadas indicam um descompasso entre o que é prometido e a realidade enfrentada pelos profissionais.
É crucial que as autoridades competentes investiguem essas alegações e assegurem que os direitos dos trabalhadores da saúde sejam respeitados. Garantir ambientes de trabalho justos e transparentes é fundamental não apenas para o bem-estar dos profissionais, mas também para a qualidade do atendimento prestado aos pacientes.
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