“Crianças estão falando mais tarde, deixando de brincar e perdendo habilidades essenciais. É perigoso. Onde vamos parar?”
Uma professora da rede particular, que prefere não se identificar, lançou um alerta que ecoa entre educadores e especialistas: a infância está sendo terceirizada e substituída por telas, não para apoiar o aprendizado, mas para terem “mais descanso”. Com isso, o contato familiar, tão essencial na primeira infância, se perde.
“Dei aula em rede municipal anos trás, voltei recentemente a atuar na profissão. Percebi que as crianças eram mais comunicativas, resolviam pequenos problemas e interagiam com autonomia. Hoje, noto atrasos na fala, insegurança e dependência de estímulos externos. É como se estivessem perdendo habilidades que antes vinham naturalmente com o convívio familiar e social”, relata a professora.
Pressão por resultados precoces
Segundo a educadora, muitos pais matriculam filhos em tempo integral mesmo sem necessidade, buscando descanso ou conveniência, e esperam que a escola ensine tudo: conteúdos, valores, idiomas e comportamento.
“Alguns esperam que crianças de quatro anos sejam fluentes em inglês, quando essa fase é para imaginar, brincar, aprender conceitos básicos de convivência e desenvolver coordenação motora. Em casa, muitas vezes, a criança só tem telas na mão.”
Ressaltamos, no entanto, que muitas famílias não têm outra alternativa: pais que trabalham longas jornadas precisam confiar na escola para cuidar dos filhos. A crítica da professora não é aos responsáveis, mas ao equilíbrio que se perde entre presença, estímulos humanos e uso de telas.
O problema não é apenas a tecnologia, mas a ausência de convivência real, do diálogo e da construção de experiências simples, que ajudam a formar autonomia e confiança.
Telas que moldam comportamento
O que preocupa a professora é o conteúdo consumido nas telas. Vídeos no YouTube e TikTok, Roblox e outros jogos digitais expõem crianças a situações complexas para sua idade:
- Brigas e invejas simuladas entre personagens;
- Namoros e relacionamentos infantis encenados;
- Piadas de duplo sentido e palavrões;
“A criança vê, imita e repete sem entender, e os pais nem percebem de onde vem o comportamento”, alerta a professora.
Ela confessa que às vezes fica em dúvida se algumas crianças apresentam sinais de transtornos, como autismo, ou se são apenas reflexos da falta de interação social e de estímulos reais, que desafiem a criança a aprender e se desenvolver.
Fonoaudiólogos e psicólogos reforçam: interação humana, brincadeiras e conversas olho no olho são fundamentais para a linguagem, comunicação e desenvolvimento emocional.
Influência digital e autoestima
Outro ponto grave é a mudança no próprio modo de falar das crianças. Há relatos de meninos e meninas que passaram a adotar sotaques de regiões onde nunca viveram, simplesmente por acompanharem diariamente o mesmo influenciador digital.
“Quando normalizamos uma criança ser mais influenciada pela fala de um youtuber do que pelo sotaque da própria família e comunidade?”, questiona.
Além disso, valores se distorcem: adolescentes de 10 ou 12 anos acreditam que o mais importante da vida é ter um iPhone, porque não receberam orientação em casa sobre prioridades, respeito ou convivência.
Onde a família entra
Tecnologia não é vilã. Mas a ausência de presença familiar, atenção e diálogo diário compromete o desenvolvimento das crianças.
“São crianças criadas pelas telas e pelo convívio escolar. Mas o que elas vão lembrar da família? Qual memória vão levar da infância?”, questiona a professora.
Momentos simples — contar histórias, brincar, conversar — são essenciais para formar autonomia, confiança e habilidades sociais. Sem isso, as crianças crescem sem preparo para lidar com frustrações e desafios reais.
Alerta aos pais
O que pode parecer banal tem um impacto profundo.
Sinais de alerta de atraso na fala ou comunicação:
- Dificuldade em formar frases completas até os 4 anos;
- Pouca interação com colegas ou familiares;
- Repetição exagerada de palavras ou sons sem significado contextual.
Dicas para estimular comunicação e habilidades sociais:
- Conversar diariamente, ouvir e responder;
- Ler livros e contar histórias, incentivando participação;
- Brincar juntos, promovendo jogos de imaginação e resolução de problemas;
- Limitar tempo de tela e priorizar atividades ao ar livre;
- Estabelecer momentos de refeição e convivência sem dispositivos.
“Pais e responsáveis precisam assumir papel ativo. A infância não pode ser roubada pelo tempo diante de telas”, alerta a professora.
Reflexão final
O desenvolvimento infantil exige estímulos reais, convivência humana e desafios diários. Sem isso, o risco é formar crianças com atraso de fala, baixa autoestima, ansiedade e dificuldades emocionais que podem se prolongar na vida adulta.
Ela ainda percebe um efeito de longo prazo:
“Estamos formando uma geração com muitos problemas psicológicos e de autoestima. Crianças e adolescentes não são estimulados a lidar com frustrações, a se desafiar ou a desenvolver habilidades reais. A internet oferece recompensas rápidas e serotonina barata, e já podemos ver que muitos jovens adultos estão ansiosos, inseguros e apresentam dificuldades em se tornar profissionais confiáveis e bem-preparados.”
o alerta: o cuidado, a presença e o diálogo familiar são tão essenciais quanto qualquer tecnologia ou aprendizado formal. Pais, cuidem do tempo e da qualidade das experiências que oferecem às crianças, a infância é única e irreversível.

